Originários
de Ossana e de Deggiano na Itália,
eles chegaram no Sul da França em 1886,
se estabeleceram em Nice e em
Clans
nos Alpes Marítimos…
Em 1949 um ramo da família Dell'Eva
foi para o Nordeste do Brasil
(arquivo de Guerrina Dell'Eva Rigatti e de Giovanni Rigatti-Italia)
Versão Brasileira (não ilustrada)
Joanna Alice Dell’Eva
Fortaleza – Ceará – Brasil
Agosto 2005
(revisada em janeiro de 2009 e agôsto de 2010)
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Ângelo Tito DELL’EVA 1872-1950Ester Elvira PODETTI 1883-1976 |
(ver ilustrações e fotos na versão Italiana)
Ângelo Tito DELL'EVA de origem italiana, é meu avô paterno, nascido em 23 de Fevereiro de 1872 em OSSANA , situada na região norte de Trento, mais conhecida como Val di Sole Trentino. Seus pais eram Giovanni Battista DELL’EVA (1838-1919), natural de Ossana e Clementina SLANZI (1843-1916), natural de VERMIGLIO, também Provincia di Trento, Região Trentino–Alto Adige, os quais tiveram 10 filhos todos nascidos em Ossana : Alfonso Albino (1868-1950); Antonio Giuseppe (1870-1955); Ângelo Tito DELL’EVA (1872-1950) meu avô; Rosa (1873-1899); Catarina (1875-1961); Pasqua (1877-1877); Emilio (1879-1880); Massimino (1881-1971); Carmela (1883-1921) e Giuseppina (1887-1966).
Ester Elvira PODETTI, esposa de Ângelo Tito DELL’EVA, de origem Italo-Autríaca, é minha avó paterna, nascida em 31 de Agosto de 1883 na cidade de DEGGIANO (Val di Sole) – Comune de Commezzadura, (Antigo Império Austríaco até 1919). Ester era filha de Pietro PODETTI originário de Deggiano e de Teresa MARINOLLI originária de Val di RABBI, os quais tiveram 6 filhos todos nascidos em Deggiano, exceto Maria nascida em Verona : (1)Maria (Jiacinta) (1873-1940); (2)Gabriele Giuseppe-Fortunato (1874-1929); (3)Giovanni Battista (1876-1914); (4)Giuliano Fioravante (1880-1944 ?), (5)Ester Elvira (1883-1976) minha avó e (6)Camillo Corrado (1887-1942).
(1) Maria (Jiacinta) PODETTI, filha legítima de Teresa MARINOLLI (mãe solteira em 1873), foi registrada ao nascer na Paroquia de Commezzadura sob o nome de Jiacinta MARINOLLI. Após o casamento de Tereza MARINOLLI com Pietro PODETTI (meus bis avós), seu nome foi mudado para Maria PODETTI. Maria foi morar com sua irmã Ester Elvira (minha avó) na cidade de CLANS no Sul da França em 1926, mas falecerá solteira e sem filhos em Deggiano em 12 de julho de 1940 aos 67 anos.
(2) Gabriele Giuseppe Fortunato PODETTI, não se casou e não teve filhos, falecendo em 18 de março de 1929 aos 54 anos.
(3) Aos 24 anos, Giovanni Battista PODETTI imigra para a América (USA) em 1901 para trabalhar nas minas de carvão na Filadelfia como muitos imigrantes italianos naquela época. Ele voltará para casa de seus pais em Deggiano e retorna mais uma vez para a América em 1909 aos 33 anos de idade. De retorno à Deggiano é declarada a Primeira Guerra Mundial o qual será convocado pelo exercito e falecerá em 22 de dezembro de 1914 durante uma grande batalha em “GALIZIA” - batalha na Galicia. Giovanni Battista nâo se casou e não teve filhos.
(4) Seu irmão Giuliano PODETTI também imigrou para América (USA) para trabalhar nas minas de carvão, onde teria falecido solteiro em 1944 (?); não encontrei registros de seu falecimento em Commezzadura durante minha estadia na Italia em 2006; a famílha pensa que faleceu nos USA. (Inédito : Encontrei registros desta imigração na Internet contendo todos os dados de Giovanni e seu irmão Giuliano : (Giovanni Podetti nº 7 no link abaixo)
(5) Ester Elvira PODETTI, minha avó, imigrou para Nice no Sul da França em 1904 logo após seu casamento com meu avô Ângelo Tito DELL’EVA (são meus avós paternos), onde terão seus 3 filhos, Pierre Baptiste, Charles (meu pai) e Raymonde, e onde passarão suas vidas.
(6) Por sua vez Camillo PODETTI, (irmão caçula de minha avó Ester Elvira (MARINOLLI) PODETTI DELL’EVA), casou-se com Maria BELFANTI no dia 09.04.1921 em Deggiano e tiveram 4 filhos. Camillo PODETTI escolhe para 3 de seus filhos os nomes de seus irmãos:
1/ Giovanni (1922-1943)–faleceu em plena Segunda Guerra Mundial em Popowka na RUSSIA em 1943;
2/ Giuseppe (1923-1998);
3/ Cesira Ester, nasceu em 1926, e continua morando em Deggiano (*);
4/ Tullio Gabriele (1930-1998)
Camillo PODETTI faleceu também em plena segunda guerra mundial em 17.07.1942 em Deggiano aos 55 anos.
(*) Em agosto de 2006 conheci Cesira Ester (Belfanti) PODETTI na pequena cidade de Deggiano, sobrinha de minha avó também chamada de Ester Elvira (MARINOLLI) PODETTI.
Ester (Belfanti) Podetti é a última desta geração,a última testemunha de um passado já distante, prima legítima de meu pai Charles DELL’EVA.
Ester (Belfanti) Podetti casou-se com Giovanni GRAMOLLA (1926-1974) e tiveram 2 filhos: Mario (1952) e Oreste (1958) GRAMOLLA os quais continuam residindo em Deggiano perto de sua mãe Ester.
[ Em julho de 2010, achei um site na Internet sobre os Marinolli-PODETTI, (doc PDS 178 - pg 20), ramo de minha avó paterna, onde falam também das imigrações no inicio dos anos de 1900, quando os jovens italianos partiam para os USA para trabalhar nas minas de cavao e outros minérios (que coragem !) ]
As cidades de nossos ancestrais paternos, OSSANA e DEGGIANO, fazem parte hoje da Província de TRENTO , a linda região Trentina-Itália. De 1819 à 1919 Ossana e Deggiano, entre outras cidades, faziam parte do Antigo Império Autro-Húngaro (Austria - Tyrol) tornando-se de fato Italianas somente após a Primeira Guerra Mundial “A Grande Guerra”, com a assinatura do Tratado de Saint Germain en Laye, assinado na cidade de Saint Germain en Laye, na França (bem perto de Paris) em 10 de Setembro de 1919.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Trait%C3%A9_de_Saint-Germain-en-Laye_%281919%29
[ TRENTO é uma província no norte da Itália de onde vieram muitos imigrantes para São Paulo, Rio Grande do Sul, e também para o Estado da Bahia. Faço parte do Círcolo Trentino de Salvador e já recebi até meu atestado pertencente "à la Comunitá Nazionale Italiana”. A província de Trento é uma província italiana da região de Trentino-Alto Adige com cerca de 477 017 habitantes, densidade de 76 hab/km². Está dividida em 223 comunas, sendo a capital Trento. Fazia parte, juntamente com a província de Bolzano, do Império Áustro-Húngaro até o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). ]
O INICIO DA SAGA DOS DELL’EVA
IMIGRAÇÃO E TRABALHO NA FRANÇA
Foi em Janeiro de 1886
que tudo começou.
Meu avô Ângelo Tito DELL’EVA, com apenas 14 anos, imigrou pela
primeira vez para o Sul da França, onde achou trabalho na pequena cidade de
Villars-sur-Var, situada nos Alpes Marítimos a 45 km da cidade de Nice.
Ângelo deixou seus familiares na Itália, como muitos outros imigrantes de
sua região, para tentar uma nova vida em um outro lugar. Antes de imigrar
para a França, Ângelo ajudava seu pai, Giovanni Battista Dell’Eva, guarda
florestal, no corte e no transporte de lenha na Região Trentina. Naquela época
os jovens trabalhavam desde cedo com seus pais nas lavouras, nos campos, nas
florestas ou deixavam suas casas à procura de trabalho, principalmente aqueles
que tinham uma família numerosa.
Muitas vezes as crianças não freqüentavam a escola, porém Ângelo sabia ler e escrever, era muito inteligente, corajoso e tinha uma grande vontade de vencer. Durante sua vida Ângelo foi pedreiro, lenhador, guarda florestal, zelador e finalmente hoteleiro e restaurador. Em suas peregrinações, sempre no sul da França em busca de trabalho, Ângelo morou em várias cidades: Malaussène, Rousillon, La Tour, Villards-sur-Var, Clans e Nice a bela Riviera Francesa. E é por isso que até hoje meu avô Ângelo é chamado em Ossana na Itália de "Angelin di Francia" (Angelino da França).
A partir de 1886, surgiram vários projetos no sul da França, principalmente na construção de novas ferrovias, tanto no interior como no litoral. A mão de obra estrangeira era muito solicitada e tinha trabalho para todos. Ângelo trabalhou como pedreiro e na construção da primeira ferrovia Nice-Digne construída pela antiga Chemin de Fer du Sud de la France S.F. (Rede de Ferrovias do Sul da França). Durante este período, ele morou em Villars-sur-Var, em Clans (de Abril a Novembro de 1891) e em Nice (de Dezembro de 1891 a Abril de 1893). (registros recebidos dos Arquivos de Nice-França)
Ângelo que completara 21 anos em 23 de fevereiro de 1893, retornou para sua cidade natal Ossana, ainda sob o Império Austríaco até 1919, (Tratado de Saint Germain en Laye assinado em 10 de setembro de 1919, perto de Paris na França), para cumprir o Serviço Militar, onde permaneceu por quatro anos.
Mas em Outubro de 1897, Ângelo voltou para a França, onde encontrou trabalho mais uma vez em Villars-sur-Var, até final de Março de 1898, e de Abril a Junho do mesmo ano em Clans. Até esta data, a vida de Ângelo havia se transformado em uma verdadeira « Valsa » de intermináveis mudanças devido as oportunidades de trabalho que surgiam nas cidades dos Alpes Marítimos na França. Mas finalmente, em Julho de 1898, ele se estabelecerá em Nice onde residirá até Maio de 1913.
Contudo Ângelo sentia muita saudade e retornaria várias vezes à Ossana para visitar sua família, onde teve a felicidade de conhecer Ester Elvira (MARINOLLI) PODETTI, sua futura esposa. Em 23 de Abril de 1904, Ângelo Tito DELL’EVA com 32 anos, casa-se com Ester Elvira (MARINOLLI) PODETTI de 21 anos, na Paróquia de COMEZZADURA, Província de Trento, tendo como padrinho de casamento seu irmão mais velho Alfonso Albino DELL’EVA de 36 anos. Após seu casamento, Ângelo e sua jovem esposa Ester Elvira DELL’EVA decidem morar em Nice onde existiam grandes possibilidades de trabalho e de prosperidade para os imigrantes, em grande parte italianos.
E é em NICE, na bela “Riviera Francesa”, a tão conhecida “Cote d’Azur” (Costa Azul), que inicia a história desses dois corajosos imigrantes Trentinos que prosperaram juntos, de mãos dadas, através das dificuldades políticas, sociais, econômicas e os conflitos das duas guerras mundiais. E foi assim que em 23 de Dezembro de 1905, véspera de Natal, nasceu seu primeiro filho Pierre Baptiste DELL’EVA, e 22 meses depois, em 28 de Outubro de 1907, seu segundo filho Charles DELL’EVA (meu pai), na “Villa Casapalva” 68, Bd Cimiez (bairro Cimiez) em Nice, onde residiam e onde Ângelo trabalhou como zelador até 1913.
Ver a história de Nice antiga
ENTRE DUAS GUERRAS
"A GRANDE GUERRA”
Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
Em 1º de Junho de 1913 com os rumores da guerra, Ângelo, Ester e seus dois filhos deixaram a Riviera Francesa para se estabelecerem em CLANS, onde Ângelo já havia morado e onde passarão 26 anos de suas vidas.
CLANS [A pequena cidade de CLANS fica situada à 55 km de Nice na Região dos Alpes Marítimos, a 700m de altitude e à margem esquerda do Rio Tinée, mais conhecido como o Vale do Rio Tinée. Seu nome, proveniente de “Kalas” (rochedo) ou seja "construída em um terreno rochoso", lhe foi dado a partir de 1066. Sua história teve início na idade do bronze com a presença dos Romanos na antiga “Via Romana”, onde foi construída a “Ponte Romana” por volta de 1137. Em 1515 a cidade começa a se desenvolver por causa de suas atividades (moinho, fornos, Igrejas, explorações florestais e agricultura). Seu emblema oficial é o URSO em homenagem à família ORSIER, Senhores donos das terras. Finalmente em 18 de Abril de 1860 a cidade de Clans passa à ser território francês. Mas foi só no início do século XIX que a cidade conhece um real desenvolvimento em vários setores, principalmente nas áreas da construção, pavimentação, saneamento, eletricidade e transporte].
Link em francês - história completa de Clans http://amontcev.free.fr/Clans.htm
Inicialmente Ângelo e outros imigrantes da região Trentina, é convidado pelo Senhor Longuy, um explorador florestal francês, para trabalhar no corte de lenha nas florestas de Clans, nas montanhas. Ângelo trabalhou na exploração florestal (corte de lenha) e também como pedreiro em diversas obras da cidade, que se encontrava em plena expansão.
Com suas economias Ângelo e Ester compraram um antigo sobrado com uma sala, uma grande cozinha e um quarto no andar térreo, sendo o mesmo no andar superior. Seus dois filhos, Pierre e Charles, iam à escola em Roussillon, um tranqüilo vilarejo bem perto de Clans, mas os dias tranqüilos não durarão por muito tempo.
Em 28 de Julho de 1914 a Áustria e a Hungria invadem a Sérvia e em 01 de Agosto de 1914 a Alemanha declara guerra à Rússia e à França. É declarada a tão temida Primeira Guerra Mundial , A Grande Guerra (La Grande Guerre 1914-1918).
Meu avô Ângelo já está com 42 anos, minha avó Ester com 31 anos, seus 2 filhos Pierre (meu tio) com 9 anos, e Charles (meu pai) com 7 anos. Ângelo não foi convocado para servir à seu país, porém, no final de 1914, uma grande surpresa os espera: os quatro são exilados na Ile Sainte Marguerite considerados injustamente como aliados das forças inimigas por serem imigrantes “italo-austríacos”, mas são libertados alguns dias depois, em Janeiro de 1915, pelas próprias autoridades francesas. Após este terrível engano a família DELL’EVA retorna para casa em Clans. (Registros recebidos dos Arquivos de Nice-França)
[A Ilha Sainte Marguerite, situada ao largo da cidade de Cannes, considerada como uma importante Prisão de Estado até o século XX, ficou famosa por suas batalhas entre Romanos, Espanhóis e Franceses e seus célebres prisioneiros, entre eles o legendário Máscara de Ferro].
Pierre e Charles serão internados em um colégio religioso na cidade de Bordighera na Riviera Italiana, a 35 km de Nice, pois eram muito levados e não gostavam de estudar !
Mas finalmente a guerra “sangrenta”, a Grande Guerra, chega ao seu fim com a assinatura do “ Armistício ” conhecido como o Armistício de Compiègne em (11.11.1918) na França, seguido da assinatura do Tratado de Verssailles encerrando oficialmente a Primeira Guerra Mundial. Ela deixará mais de nove milhões de mortos e 12 milhões de mutilados !
Os “anos 20” (1920) trazem grandes projetos e prosperidade para a pequena cidade de Clans que passa a ser conhecida pela burguesia das cidades litorâneas, tornando-se rapidamente uma estação de veraneio. Para Ângelo não lhe faltara trabalho no setor da construção. Com o aumento da população foram construídos vários reservatórios de água tanto para a alimentação das fontes da cidade como de água potável para as residências. Mas os anos 20 também trariam grandes surpresas e alegrias para a família DELL’EVA, entre elas a terceira gravidez de minha avó Ester Elvira DELL’EVA.
Ângelo e Ester decidem abrir uma pensão e iniciam a ampliação da casa com a construção de vários quartos totalizando 16 cômodos. E assim, em 04.01.1921 é inaugurada a pensão “Café-Pension des Terrasses”, mais conhecida como “Chez les Dell’Eva”, (a Casa dos Dell’Eva), situada no bairro “Pont de Clans” Ponte de Cans. (Registros de Comercio recebido dos Arquivos de Nice-França)
Alguns dias depois, em 21 de Janeiro
de 1921, nasce em Clans, Raymonde, terceiro
e último filho do casal Dell’Eva, minha tia (falecida em 11-04-2010 em
Montauroux na região do VAR nos Alpes Maritimes). Apesar do nascimento
tardio a felicidade foi muito grande, pois se tratava de uma linda menina.
Angelo já está com 48 anos e Ester Elvira com 37 anos !
(Recenciamentos de 1921, 1926, 1929, 1931 e 1936
recebidos dos Arquivos de Clans e de Nice-França)
Em 1922 é iniciada a construção da usina Hidrelétrica de « Bancairon » situada próxima a uma das entradas de Clans, beneficiando a “Casa dos Dell’Eva”, a qual hospedava seus engenheiros e operários até o final das obras em 1929. Durante o dia, Pierre e Charles, meu pai, ajudavam seu pai Ângelo no corte de lenha e trabalhavam também na hidrelétrica; a noite ajudavam seus pais na Pensão.
Devido ao grande fluxo de clientes, Ângelo teve mais uma vez que ampliar sua casa construindo um salão de festa com um piano mecânico (piano à manivela ou "musique mécanique" ) o qual agitava as noites da pacata cidade de Clans. A família Dell'Eva gostava de proporcionar e animar as festas, o que dava grandes lucros para a Pensão. Minha avó Ester Elvira, tinha os dons culinários de sua mãe, Tereza MARINOLLI PODETTI, a cozinha Italo-Austríaca, e cativava seus clientes com sua grandes especialidades, entre elas a polenta com coelho assado, seus famosos inhoques, risoto de funguis (cogumelos) e ainda as pizzaladières (um tipo de pizza a base de cebolas, anchovas, azeitonas pretas e ervas de Provence)...Os três homens Dell'Eva também gostavam de diversão, mas não gostavam de brigar, o que não os impediam de manter a ordem em seu estabelecimento quando necessário.
[ Conta-se que uma certa noite, um guarda noturno da cidade reclamou do barulho e meu pai Charles foi obrigado a se impor junto á um cliente que insistia em continuar com as músicas do piano mecânico (piano a manivela). Charles teria pego o tal homem pelo cinto da calça e o colocou para fora da casa...]
Em 10.11.1925 meu tio Pierre Baptiste (19 anos) é convocado para efetuar o Serviço Militar junto ao 13º Regimento de Cavalaria na cidade de Lyon (Vale do Rio Rhône) e retorna para casa em 04.05.1927.
Meses depois, seu irmão Charles, meu pai, que completara 20 anos, também é convocado em 14.11.1927 junto ao 94º R.M.A. (Regimento de Artilharia de Montanha) em Nice, retornando para casa em Clans em 01.05.1929. Até o cumprimento do Serviço Militar na França em 1925 e 1927, os dois filhos de Ângelo Pierre e Charles Dell'Eva, eram considerados Italianos, mesmo tendo nascido em Nice na França, porém ao efetuarem o Serviço Militar na França se tornaram definitivamente franceses (Lei de 01.04.1923). (Registros recebidos dos Arquivos Militares de Pau e de Nice - Sul da França)
Com o retorno de seus filhos em Clans (1927), Ângelo e Ester compraram um ônibus e assim tornaram-se os pioneiros da linha “Clans–Nice”. Este ônibus “familiar” dirigido por Pierre ou por Charles, partia de Clans com destino à Nice (55 Km), passando pelas pequenas cidades do Vale do Rio Tinée. Os dois irmãos eram muitos unidos, porém com a chegada de novas companhias de ônibus em Nice e a inauguração de estradas de ferro, são obrigados a vender o ônibus, pois deixara de ser lucrativo. Então, Pierre e Charles deixaram seus pais e sua jovem irmã Raymonde de 11 anos, em busca de emprego.
Em 1931, Pierre consegue trabalho como motorista em uma empresa de ônibus em Nice (onibus em Nice anos 1930) , e Charles se especializa em tornos mecânicos, na solda em cabos de aço e na fabricação de bobinas numa Usina Mecânica na cidade de Fréjus na Região de Toulon, (51 Km de Clans), onde morou no Boulevard de la Mer (Epicerie Dalmasso), até final de 1934.
Por volta de 1933, Charles deixa o Sul da França para trabalhar em uma fábrica de aviões perto de Paris como mecânico, principalement em soldas de cabos e bobinas, onde conhecerá pilotos, hoje famosos, como Antoine de St. Exupéry, Mermoz, J. Demozay...
O destino assim o quis...e os inseparáveis irmãos seguiram seus caminhos, distanciando-se cada vez mais.
Seus pais sofrem com os acontecimentos, mas permanecem na cidade de Clans com suas atividades de hotelaria e restaurante. Raymonde freqüenta a escola, é muito estudiosa e torna-se o grande orgulho de seus pais. Ângelo já havia completado 40 anos de residência na França e já era considerado “francês” pela própria comunidade. Porém, como seus três filhos haviam nascido na França, em 07.02.1931 Ângelo (59 anos) e Ester (48 anos), formulam um pedido de naturalização junto ao Ministério da Justiça em Paris com o apoio da Prefeitura de Clans, e 7 meses depois, em 17.09.1931, eles serão declarados franceses (Lei de 10.08.1927). (Registros e Atestados de Naturalização Francesa recebidos dos Arquivos do Ministério da Justiça em Paris e de Nice-França)
A “GUERRA
ESQUISITA”
E O PÓS-GUERRA
Segunda Guerra Mundial (1939-1944)
[Em 03 de Setembro de 1939 a França e a Inglaterra declaram guerra à Alemanha ! É declarada a Segunda Guerra Mundial, nomeada de " A Guerra Esquisita " , (La Drôle de Guerre), ela será longa e cruel com toda a Europa e será a grande responsável pelos êxodos].
Em 1939 com a aproximação da segunda guerra mundial, Ângelo e Ester Elvira DELL’EVA decidem vender a Pensão e deixar definitivamente a pequena cidade nos Alpes, CLANS, e se estabelecem mais uma vez em NICE. Minha tia Raymonde já tem 18 anos e, apesar da guerra, deverá prosseguir seus estudos em uma cidade grande onde as escolas oferecem mais recursos. Com a venda do imóvel em Clans, Ângelo e Ester abrem outra pensão destinada unicamente para moças de família, registrada sob o nome de :
“ DELL’EVA Pension de Jeunes Filles” (Pensão para Moças), em nome de Ester PODETTI DELL’EVA (01.10.1939). Esta pensão, situada na Rue Fodéré Prolongé nº 3 em Nice, deu à família Dell’Eva trabalho e sustento durante os cinco anos de Guerra. (Registros Analíticos de Comercio recebidos dos Arquivos de Nice-França).
[ Durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1940 e 1942, a cidade de NICE estava situada em “Zona não Ocupada” pelos alemães o que tornava a vida cotidiana mais fácil mesmo com a presença dos inimigos. Foi só a partir de 1943 que Nice deixaria de ser “Zona não ocupada”...e passaria à ser Zona Ocupada pelo alemães ]
Meus avós Angelo e Ester tiveram um papel muito importante e muito perigoso durante esta época tão sombria (1943-1945), escodendo crianças judias na pensão e protegendo-as dos alemães, cujos pais haviam sido deportados para aos campos de concentração, e muitos jamais voltaram. Meus avós eram muito religiosos e assim conseguiram cumprir esta missão juntamente com o padre de sua paróquia em Nice. Minha tia Raymonde (22 anos) já era enfermeira nos hospitais de Nice e atravès da Cruz Vermelha, enviava ao seu irmão Pierre, prisioneiro de guerra na Alemanha, cartas e pequenos pacotes de sua mãe Ester, contendo alguns produtos, conservas e cigarros (relatos oficiais de minha tia Raymonde Dell’Eva Desestrés em 2006 e 2009 na ocasião de minhas visitas à minha família em Montauroux)
Finalmente
após 5 anos, a terrível guerra chega ao seu fim em 07
de Maio de 1945 !
A Alemanha se
rende e no dia 08 de Maio de 1945 é assinada a “Capitulação”
(rendição dos alemães) na cidade de Reims na França. Além das grandes
perdas pessoais e materiais, a Guerra Esquisita 1939-1945, custou
cerca de 55 milhões de vidas humanas. Até hoje, dia 08 de Maio é feriado
nacional na França com grandes comemorações.
Em 24.01.1945 a Pensão dos Dell’Eva será vendida, mas Ângelo, Ester e Raymonde, continuarão vivendo em Nice na “Villa des Cailloux, Chemins de Saint Pierre de Féric”, onde Ângelo Tito DELL’EVA falecerá em seu domicílio no dia 19 de Agosto de 1950 aos 78 anos (6 meses após o nosso nascimento em São Luiz, sem rever o seu querido filho Charles, o qual o chamava de "Charlot" ou "Carlos")
Raymonde Dell’Eva por sua vez, foi diplomada enfermeira em Nice, onde se casou em 1952 com Marc Déséstrés, médico, com quem teve dois filhos : uma menina Dominique e um menino Bernard, hoje médicos como seu pai. Minha tia continua morando até hoje em Montauroux, uma cidade perto de Nice (Var), com seu marido Marc perto de seus dois filhos e netas. Meu primo Bernard casou-se com Marie Claude F. chefe de laboratório, mas não tiveram filhos. Minha prima Dominique casou-se com Philippe M., também médico e moram também em Montauroux. Eles tiveram duas filhas, Hélèle e Aurore. Hoje, em 2005, Hélène é Engenheira e Controladora do Tráfego Aéreo em Athis-Mons, perto de Paris ; Aurore é farmaceutica em Paris.
[ N.B. de Joanna Dell’Eva em junho de 2010 : Meu tio preferido, Marc Jean-Baptiste Joseph DÉSÉSTRÉS faleceu em 19 de Junho de 2009 em sua casa em Montauroux; Minha tia Raymonde Dell’Eva DÉSÉSTRÉS, irmã de meu pai, a última desta geração, faleceu em 11 de Abril de 2010, nove meses mais tarde, indo ao encontro de seu amado marido.]
Minha avó Ester Elvira viveu longos e merecidos anos de felicidades com sua filha Raymonde, seu bondoso e dedicado genro Marc DÉSÉSTRÉS seus dois netos, Bernard e Dominique em Montauroux, na Região do Var (perto de Nice e Cannes).
Ester Elvira PODETTI-DELL'EVA faleceu em sua casa em Montauroux em 10 de Maio de 1976 aos 93 anos para ir finalmente ao encontro de seu eterno companheiro, Ângelo Tito DELL’EVA.
Em 1932, após um grave acidente causado por um defeito nos freios do ônibus o qual dirigia, meu tio Pierre Baptiste Dell’Eva deixa a empresa de transportes em Nice para seguir carreira militar em Metz (Lorraine) e em Strasbourg (Alsácia) no Leste da França, junto ao 13º Esquadrão da Cavalaria onde é nomeado sargento em 1937. Com a declaração da Segunda Guerra Mundial em 1939, Pierre é transferido para o 10º Regimento dos Dragões – G.R.D.I. (Regimento de Elite) em 12 de Junho de 1940 em Strasbourg.
Mas 8 dias depois ou seja no dia 20 de Junho de 1940, véspera do Armistício (rendimento da França aos Alemães) em 22 de Junho de 1940 , ele será capturado pelos alemães, assim como todo seu regimento, na cidade de Château Gontier, Região de Mayenne, (entre a Bretagne e a Normandia na França) e internado no Fronstalag 202 (Campo de transito dos prisoneiros de guerra) situado na cidade de VOVES, 28 km de Chartres na região Eure & Loire na França. Algum tempo depois ele será transferido como prisoneiro de guerra sob o número de matricule 48.657 na Allemanha, durante os 5 anos de guerra.
Durante esse longo período elle será trasnferido successivamente nos campos de prisoneiros de guerra chamados de « STALAG ». Seu primeiro campo será o Stalag XII A em LIMBURG, situado entre Limburg-an-der-Lahn (Hesse) e Diez (Rhénanie-Palatinat), à 52 km de Francfort-sur-le-Main e à 35 km de Coblence. Depois ele será transferido para o Stalag XII B em FRANKENTHAL, região de Rhénanie-Palatinat, 70 km de Francfort-sur-le-Main, 104 km de Stuttgart.
Este último foi dissolvido no final de 1941 e encorporado como “campo satélite” ao Stalag XII F na cidade de FORBACH situada na Região da Moselle na França (zona annexada à Alemanha durante a guerra), mais conhecido como o Campo de Ban-Saint-Jean. O campo Ban-Saint-Jean será chamado de "Johannis-Bannberg" , o qual será o campo secundário do Stalag XII F, permanecendo assim até a chegada das tropas aliadas.(final de novembro 1944).
Os “STALAG” eram destinados aos sub-oficias obrigados a trabalhar para os alemães em locais conhecidos como “KOMANDOS” (minas, campos, fazendas, fábricas, construções etc...). Até o presente momento não consegui descobrir em quais “Komandos” o meu tio Pierre trabalhou durante 5 anos na Alemanha.
Meu tio Pierre Baptiste Dell’Eva só sera libertado pelas tropas aliadas em 31 de Março de 1945 sendo repatriado para um dos "Centros de Triagem” na cidade de Longuyon (Região de Meurth-et-Moselle) no Leste da França em 01 de Abril de 1945, e finalmente enviado ao seu domicílio no Sul da França em 03 de Abril de 1945. Pierre será desmobilizado 9 dias depois. Quanto sofrimento ! foram 5 longos anos de angústia, prisoneiro de guerra dos alemães, na Alemanha !
Após a guerra, ele teria trabalhado na construção da Barragem de Castillon até 1948. Mas devido às seqüelas de guerra, Pierre, que sofria de problemas pulmonares, foi internado em um hospital perto de Nice em 1960.
[
De agosto de 1960 até julho de 1961, mamãe Lucia Paulette, meu irmão Bernardo
Pedro e eu, morávamos no Centro da França em Chaumont sur Loire (Loir et Cher,
Região do Rio Loire e de seus Castelos), na casa de minha avó materna, Albertine
Jeanne Angeline LENAY-LECOMTE). Durante esse período ficamos internos
em colégios situados na cidade de Blois, 9 km de Chaumont. Minha escola era
“Ecole Saint Hilaire”, uma escola para meninas e a de meu irmão a “Ecole Notre
Dame des Aides”, uma escola para meninos.
Mamãe
que havia sofrido um grave ataque cardíaco em Fortaleza, precisava de muito
repouso e ficara na casa de sua mãe, mais conhecida comme Jeanne Lenay “DENIS”
por causa de seu companheiro René DENIS.
Era uma magnífica propriedade, um pequeno castelo, ou mais propriamente um antigo convento de capucinos, chamado de Prieuré de Saint Martin construído no século XII. Situada em um grande parque à beira do Rio La Loire, foi comprado e transformado por minha avó Jeanne em 1939-1940 em um hotel-restaurante, Le Manoir du Moutier Saint Martin, muito conhecido até 1970 e frequentado pela alta sociedade da região do Loire como também de Paris. (ver histórico sobre Chaumont sur Loire, suas pontes, e a casa de minha avó materna Jeanne LENAY).
Foi então em Dezembro de 1960 que papai Charles nos deu à todos nós uma grande surpresa e alegria, vindo ao nosso encontro para passarmos juntos, pela primeira vez as festas de final de ano na França e no seio da família. Essa estadia de apenas 15 dias seria sua primeira e última viagem para rever sua Patria, sua mãe Ester, seu amado irmão Pierre, sua irmã Raymonde e seus grandes amigos em Paris, após mais de 20 anos de silêncio.
Não posso deixar de citar que esta viagem foi realizada com seu grande amigo cearense o Dr. Orlando Falcão, que tinha inúmeras histórias para contar. Uma delas foi o encontro de papai Charles com sua família em Montauroux no Sul da França e com seus fieis amigos, o que restava de seu grupo da Resistência Francesa em Paris. "Foram reencontros impressionantes e inesquecíveis" como dizia o Dr. Orlando, testemunho único destes fatos de tão grande importância, o qual jamais esquecera. Gostava também de relembrar desta memorável viagem e de algumas frases que havia aprendido como : "qu'es-ce que vous avez comme fromages ?" (quais os queijos que voces têem?)...pergunta inevitável na França !!! (queijos & vinhos...são imperdíveis !) ]
E finalmente os dois irmãos Charles e Pierre se reencontraram pela última vez. Meu tio nunca se casou e não teve filhos.
Pierre Baptiste DELL’EVA faleceu no Centro Hospitalar em Nice, sua cidade natal, em 28 de Janeiro de 1969, aos 64 anos.
Por sua vez, papai Charles DELL’EVA, deixa o Sul da França (1933) para trabalhar em um atelier de aviação em PARIS, capital francesa, como mecânico e soldador onde conheceu pilotos e pessoas famosas tais como Antoine de Saint Exupery, J. Mermoz, e Jean DEMOZAY seu amigo durante a guerra (1939-1945).
Entre 1936 e 1939, trabalhará também em hoteis, bares e restaurantes, em Lille (Norte da França), no Touquet Paris-Plage (Região Nord-Pas-de-Callais, Manche) e finalmente em Paris (no bairro de Montmatre-Pigalle).
E é em Paris, cidade da Luz, que papai Charles conhecerá uma linda francesa de 25 anos, cabelos ruivos e belos olhos verdes a qual se apaixonou por ele e por seu belo sotaque italiano. Era minha mãe, Lucia Paulette LECOMTE, viúva desde 1937 de Roger Georges BOISSONNET, enfermeira diplomada em Paris, agente dos Hospitais da Assistência de Paris, onde já morava com sua jovem filha Geneviève Jeanne Boissonnet de apenas 5 ou 6 anos de idade, minha irmã, nascida em 30-08-1933 em Paris.
Lucia Paulette Lecomte nasceu ma pequena cidade de Saint Dyé sur Loire (Loir & Cher), centro da França, em 23 de Julho de 1914, cinco dias antes da declaração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Era filha de Théodore Henri LECOMTE, viticultor, e de Albertine Jeanne Angeline LENAY, costureira, originários da Região do Loire & Cher. No Brasil minha mãe era mais conhecida por Lucia, seu primeiro nome (em homenagem ao seu tio Lucien, irmão de seu pai Théodore Henri LECOMTE). Porém na França ela era chamada pelo seu segundo nome, Paulette. Durante 12 anos minha mãe exerceu suas funções nos hospitais La Pitié Salpétrière, Thenon, Vaugirard, Bicêtre, E.A. Enfants Assistés e na Administration Générale de l'Assistance Publique em Paris. (dossiê de sua carreira recebido da Direção dos Archives de France em Paris em 05-11-2002)
Sua mãe Albertine Jeanne
Angeline LENAY LECOMTE, minha avó materna, era modelista
dos grandes ateliers de costura, a famosa Maison WEILL em Paris, onde trabalhava
desde 1926. Em 1939 com a declaração da guerra, os proprietários
WEILL, de origem judaica, foram obrigados a fechar a renomada Maison
WEILL; Jeanne deixará Paris, como também
sua brilhante carreira na Haute Couture, para morar em Chaumont sur Loire
(Val de Loire, centro da França) com seu companheiro Irenée
Denis (René) e sua segunda filha Jacqueline, meia irmã de minha
mãe, onde já residiam sua mãe, Angeline Alexandrine LEMAIRE
LENAY e seu irmão Charles Alexandre LENAY.
Com suas economias e de seu companheiro René Denis (dezenhista), comprou
um antigo convento do século XII, o "Prieuré
de Saint Martin" na beira do Rio La Loire, e o transformou
em Hotel Restaurante, Le Manoir du Moutier Saint Martin,
onde se tornou uma grande e talentosa "chefe de cuisine" e de "patisserie"
até 1970, lembrada até hoje! O Prieuré de Saint Martin
foi vendido em 1970, porém nunca mais seria o mesmo.
Jeanne LENAY LECOMTE falesceu em 1978 em Saint Jean de la Ruelle em Orléans, região Loiret, na França.
Em 01 de Setembro de 1939, Charles será convocado pelas Forças Armadas Francesas e mobilizado em Nice de onde partirá para os Alpes com seu regimento, o 94º R.A.M., (Regimento de Artilharia de Montanha) junto à Forças Armadas dos Alpes, em missões de reconhecimento, proteção e combate nas fronteiras francesas, também conhecidos como Chasseurs Alpins (Caçadores Alpinos). Era o início da Segunda Guerra Mundial ! Quatro meses depois Charles obterá alguns dias de licença e se casará com minha mãe, Lucia Paulette LECOMTE, em 24 de Janeiro de 1940 numa pequena prefeitura de Paris, sem cerimônias ou festas. Minha Mãe vestida de enfermeira com seu veu branco utilizado naquela época pelas enfermeiras e meu pai com seu uniforme de soldado do 94º R.A.M. Quanta coragem para se casar em plena guerra ! ou muita paixão ?
Dois meses depois, em 30 de Março de 1940 Charles é ferido nos Alpes e internado no Hospital Militar de Pontcharra (Isère) até 19 de Abril de 1940. Em 13 de Maio de 1940 é transferido para a 215º Companhia de Teleféricos e em seguida para as unidades 325/2 e 325/3 (instalações e manutenções de teleféricos) na região de Grenoble (Isère). (fonte : HISTÓRICO MILITAR – documentos e Jornais das Operações recebidos dos Arquivos do Minstério da Defesa em Paris e Histórico do Hopital Complémentaire Militaire de Pontcharra recebidos da cidade de Poncharra)
Porém em 22 de Junho de 1940 a França conhecerá a pior de todas as derrotas com a assinatura do tão “temido” Armistício e a França se “rende” aos Alemães (Armistice France-Allemagne). Papai Charles é desmobilizado em 25 de Julho de 1940 como a maioria dos regimentos franceses, e recebe a medalha Croix de Guerre 39-45. (Cruz de Guerra 39-45), enquanto seu irmão Pierre Baptiste Dell’Eva é “prisoneiro de guerra” dos Alemães na Alemanha ! Ironia do destino ! ?
De volta à Paris Charles decide abrir um restaurante-café-bar, o “Charly Bar” na Rue Condorcet nº 70, no 9ème Arrondissement, (final de 1940 à 1941) entre os bairros de Pigalle e Blanche, perto de Montmartre, Moulin Rouge...,onde adotará seu pseudônimo « Charly ».
Charles e Lucia Paulette passam a morar no Hotel
Migny, 13 Rue Victor Massé, continuação da Rua Condorcet, bem próximo ao Charly
Bar.
[ O Hotel Migny ainda existe e eu também
estive lá ! Em 2003 tive vários contatos telefônicos com o filho
do proprietário, Pierre MIGNY, o qual conheceu muito bem meus pais
- nossos pais foram muitos amigos. Infelizmente o Pierre faleceu em 2007 na
regiao de Nevers onde residia, e não pude conhecê-lo pessoalmente.
Hotel Migny - Paris
]
Ainda inconformado com o rendimento da França e com os diversos apelos do General Charles De Gaulle à partir da Inglaterra, (18.06.1940), meu pai Charles vende o Charly Bar e ingressa ao movimento de Resistência “Réseau Vengeance” em 1942, e a partir de Março de 1943 nas Forças Francesas do Interior (FFI) em Blois, Vale do Loire (Centro da França) onde morava a família de minha mãe e sua jovem filha Geneviève, que já está com 10 anos de idade). Minha irmã passará todo o período da guerra com nossa avó Jeanne, pois Paris se tornara muito perigoso. Geneviève verá sua mãe só alguns dias por mês e nâo gostava de relembrar desta época tão triste.
Minha mãe, Lucia Paulette passará quase todo o período da guerra trabalhando nos Hospitais e na Cruz Vermelha em Paris. Suas recordações eram tristes e comoventes, grande testemunha de fatos inesquecíveis, uma época sombria para todos, onde se vivia somente o presente com a esperança de paz no futuro.
Charles terá missões perigosas contra o avanço das tropas alemãs (informações, sabotagens, recepção de paraquesdistas e de materiais vindo da Inglaterra) etc...e em 1944 participará ativamente na liberação em Paris.(informações recebidas da BDIC Blibliothèque Documentation Internationale Contemporaine, Museu de História Contemporânea de Paris em janeiro de 2006 e dos Museu da Resistência de Blois - Loir et Cher em 2003)
É claro que meu pai não tinha só amigos pois havia muitas rivalidades entre os grupos da Resistência e da Milícia francesa. Nem tudo era "azul" ou "rosa" nem "preto" ou "branco". Papai escapou várias vezes da deportação. Foi delatado e preso pela Gestapo na Prisão do Cherche Midi em Paris...Mas deixemos este capítulo em "suspense", onde falarei no meu livro ainda em elaboração.
Finalmente em 08 de Maio de 1945 a terrível Guerra, a tal “Guerra Esquisita”, chega ao seu fim, e os chefes de Estado e dos Governos aliados anunciam simultaneamente nas emissões de rádios a cessação oficial das hostilidades na Europa. É hora de trabalhar e de recomeçar uma nova vida !
No final de 1945, Charles e Lucia Paulette
gerenciam o Hotel Montfleuri situado na Avenue de la Grande
Armée nº 21, continuação da Avenue des Champs Elysées, frente ao monumental
Arco de Triunfo em pleno coração da cidade Luz, Paris, até final de 1947. Este hotel ainda existe e foi totalmente
reformado em 2003. (eu também estive lá ! Hotel Montfleury - Paris )
(Registro Analítico de Comercio
de Paris-28.12.1945 recebido dos Arquivos do Comercio de Paris em 2003)
IMIGRAÇÃO E TRABALHO NO BRASIL
Será que Charles DELL’EVA teria em seu sangue Trentino os mesmos instintos de "aventura e imigração" dos PODETTI-DELL’EVA ? E a “Valsa” das mudanças continua...
Em Março de 1948, Charles e Lucia Paulette deixam a França para morar em Madrid em busca de novas oportunidades onde permanecem até Dezembro de 1948. No início residem no Hotel Compostela, situado na Calle Munoz Torrero, nº 7 e em abril de 1948 passam a residir no 5º andar de um imóvel residencial na Calle Morcilla nº 131.
Mas as coisas não ocorrerão como previstas. Alguns meses depois, Charles recebe uma proposta bastante tentadora para exploração florestal na América do Sul por um tempo determinado. Toda a Europa estava em reconstrução e para isto existia grandes oportunidades de importação de madeiras !
Partir para bem longe e tentar esquecer as tristezas da guerra que ainda reinavam na Europa em 1949, era o sonho de muitos naquela época, e que se tornaria realidade para meus pais meses depois. No entanto não se tratava de uma viagem de turismo em um confortável transatlântico, ou em um Boeing 777 ! era bem diferente do que se imaginava.
Para minha mãe Lucia Paulette, não foi nada fácil tomar certas decisões, e deverá deixar, mais uma vez, sua jovem filha Geneviève “Poupette” de 15 anos com sua mãe Jeanne no Hotel Restaurante "Le Moutier Saint Martin", em Chaumont sur Loire, para seguir seu marido, e também por se tratar de uma “perigosa e inconfortável aventura” em alto mar.
Nos primeiros dias de dezembro de 1948, Charles e Lucia Paulette Dell’Eva deixam finalmente a Espanha a bordo de um pequeno barco o “Bluette”, com destino à Caracas, Venezuela.
Várias cartas e cartões postais antigos escritos por minha mãe Lucia Paulette à sua mãe Jeanne na França, entre 1948 e 1949, revelam seus destinos e os caminhos tomados por este pequeno barco pesqueiro, o qual decidi nomeá-lo de “o barco fantasma” .
Em suas duas escalas minha mãe escreve o seguinte (tradução) :
Las Palmas, 22 de Dezembro de 1948
" Mamãe querida, caro papai (seu padastro) e Poupette (sua filha)
Nós estamos no pais do sol eterno faz uma semana e partiremos amanhã para o VENEZUELA si nâo houver contra ordens até la. Teremos mais ou menos 17 dias em alto mar. Devemos fazer uma escala em CABO VERDE e de là os avisarei se tudo estiver bem. Deste pequeno continente que é o final de um e o começo do outro, nós dois lhes enviamos nossos mais afetuosos pensamentos e muitos beijos grandes. Sua filha que pensa muito em vocês. Paulette.”
Mindelo, 15 de Janeiro de 1949
Cabo Verde (Ilhas Portuguesas em pleno Atlântico)
" Mamãe querida,
Chegamos já alguns dias nesta ilha onde efetuamos uma escala de uma semana para refazermos o estoque. Nós partiremos segunda-feira de manhã para « Trindad », ilha Inglesa bem perto de Caracas. Será nossa última escala. Pensamos estar lá em vinte dias. Nosso barco não é muito rápido, é um pequeno « iate ». A viagem até agora correu tudo bem e o mar está magnífico, um sol continental e fizemos pescas milagrosas : 11 Atuns em uma hora pesando em média 5 kg. Em breve estarei tão preta quanto os moradores daqui. Minha mãezinha querida, nós dois abraçamos todos vocês bem forte e todos nossos pensamentos estão com vocês. Seus grandes filhos. Paulette e Charly" (Lucia e Charles Dell’Eva)
Acontece que este barco perdeu o seu rumo e “arribou”, após sua penúltima escala na Ilha de Mindelo (Cabo Verde) em 15 de Janeiro de 1949, em direção à Trinidad, sua última escala antes de chergarem à Caracas-Venezuela !
[ Será que este pequeno barco era um barco de pesca de atum (?) e qual seria a nacionalidade deste barco (?) já que ele havia saido de um porto espanhol, penso que foi de Barcelona mas não tenho ainda certeza. Meus pais falavam de um pesqueiro, um veleiro de aproximadamente 15 m e que a viajem fora bastante longa, sem conforto e bem difícil para minha mãe, entre tempestades e calmarias em alto mar. Seu nome “Bleuette” é mencionado em seus documentos oficiais de naturização brasileira, recebidos do Arquivo Nacional - Coreg/DF em Brasília em 23 de Julho de 2004 (data de aniversario de minha mãe), graças a enorme dedicação e atenção do Senhor Carlos Max Gomide Freitas, pois sem ele eu jamais teria conseguido disvendar este mistério, nem teria o prazer de ter em minhas mãos o processo completo e autenticado da demanda de naturalização de meus pais onde consta inúmeras informações desde a chegada no Brasil !(ver Naturalização - 1960, mais em baixo). A história se repete !?...ver acima, naturalização de meus avós Angelo e Ester, documentos também recebidos dos arquivos de Paris e de Nice en 1931 - quase 30 anos antes !
Não foi fácil chegar até o Senhor Carlos pois minhas buscas começaram pelo MJ-DNN Rio de Janeiro, Capital do Brasil na época; em seguida fui encaminhada aos Arquivos dos Imigrantes do Rio e de Sao Paulo e finalmente ao Arquivo Nacional em Brasila.] Me senti uma verdadeira bola de Ping Pong durante mais de dois meses, porém como diz o ditado : "Persista, Insista e não DESISTA" ! (nunca desisti)
Lhe serei eternamente grata Senhor Carlos Max Gomide Freitas e me sinto honrada em tê-lo conhecido ]
Apesar de inúmeras pesquisas tanto na França como no Brasil, jamais encontrei informações concretas sobre a origem deste barco “fantasma”. Contudo entre 2008 e 2009 consegui encontrar em sites espanhois, na internet, várias informações evasivas (vestígios) sobre a existência de um pequeno barco pesqueiro chamado BLUETTE o qual efetuava transporte de imigrantes saindo da Espanha para Caracas, entre muitos outros; a maioria destes imigrantes viajavam com um contrato de trabalho oficializado pelas autoridades Caracaenses em Madrid, e em condições precárias de sobrevivência em alto mar sendo a maioria deles pesqueiros. Existem vários documentos e livros porém...nos arquivos em Madrid !
Acredito que o barco BLUETTE mencionado nos sites espanhois seja sem dúvida alguma o mesmo. Devo prosseguir estas buscas e estou certa de que um dia conseguirei descobrí-lo...! ]
http://www.red-redial.net/doc_adj/anuario/42-1-1gonzalez.pdf
http://www2.1mayo.ccoo.es/publicaciones/doctrab/doc302.pdf
Enfim, a verdade
é que o tal do veleiro “Bluette“ ou “Bleuette” como
era chamado por meus pais, procedente das Ilhas de Las Palmas (Espanha) com
destino à Caracas (Venezuela) , arribou em alto mar...e foi parar na
Bahia de São Marcos em São Luis, Maranhão, BRASIL em 18 de Fevereiro
de 1949, onde nasci 1 ano depois, e Viva Brasil !
N.B. em 22-02-2012 : Entre final de Novembro de 2010 e Janeiro de 2011,
importantes descobertas foram feitas sobre o BLUETTE e dois ocupantes também
franceses deste mesmo veleiro, últimos testemunhos, vejam nos sites na
minha página principal : Saída do Bluette
de Las palmas e a Chegada do Bluette em São Luiz
SÃO LUIS – MARANHÃO
BRASIL
E foi assim que chegaram na cidade de São Luis , Capital do Maranhão (norte do Brasil) em 18 de Fevereiro de 1949, pela qual se apaixonaram e permaneceram até 15 de Junho de 1952 :
São Luiz, 19 de Fevereiro de 1949
" Meus queridos,
Chegamos ontem à noite após uma viagem um pouco longa. Pensamos ficar aqui algum tempo...Está
tudo bem, está um pouco quente, o país é acolhedor. Eu lhes escreverei mais
longamente em breve. Esperamos que vocês três estejam em boa saúde e que nossa
Poupette está bem comportada. Me escrevam para : Posta Restante – São Luiz,
Maranhão, BRASIL (via aérea) senão demora 2 meses.
Abraçamos voces de todo coração e pensamos muito em vocês, Paulette. Muitos
beijos à todos, Charly ”
[ Não posso deixar de citar que São Luiz, Maranhão, foi descoberto em 1612 pelo Chevalier Daniel de la Touche de la Revardière, francês, em , sendo a única cidade do Brasil descoberta de fato por franceses ! Coincidência ou não, la estavam eles ! ] http://jcraymond.free.fr/Celebrites/R/Ravardiere/Ravardiere.php
A história de meus avós paternais se repetia 43 anos mais tarde, porém a 10.000 km de suas origens e de seus familiares e em condições bem precárias. Suas vidas não foram fáceis...Minha mãe estava bastante doente (fibroma importante) seguido de hemorragias constantes, e não conseguiria prosseguir a viagem naquelas condições. Porém nada era definitivo ainda, pois como ela o menciona no cartão postal acima, “ pensamos ficar aqui algum tempo...”
No início, com o apoio da Prefeitura de
São Luis, (Pedro Braga e Paula Gomes-meu padrinho de batizado), Charles abriu
uma Olaria com dois amigos franceses, onde fabricou telhas e tijolos, grande
necessidade naquela época em S.Luis. Era chamada de “Olaria do Bacanga”, na
beira do Rio Bacanga, chamado por minha mãe de “o rio dos crocodilos”, além
de ser localizado em pleno mato, longe de tudo e perto de nada...! Minha mãe
continuou exercendo sua profissão de enfermeira na colonia de agricultores bem
perto da Olaria sob a supervisão e a direção do Doutor
Pedro Braga, médico, o qual se tornou um grande amigo e padrinho de meu
irmão gêmeo Bernardo Pedro Dell'Eva.
Pedro Braga teve um papel muito importante em São Luis, Maranhão,
como médico, membro da Academia de Letras, Deputado, Diretor da LBA...
Infelizmente esta Olaria foi totalmente
destruída por um dilúvio em Janeiro de 1950. Mas esta tristeza foi amenizada
por uma grande alegria, o nascimento dos gêmeos, Bernardo Pedro
e Joanna Alice DELL’EVA (eu), em 14 de Fevereiro de 1950;
Gêmeos SIM, porém somos "Aquarianos" !!!
[ Não posso deixar de citar que o grande médico e ginecologista
que acompanhou esta gravidez considerada de "alto risco", e o qual
realizou com grande sucesso esta tão "temida cesariana", foi
o Doutor e Professor, Barcelar Portela, sempre lembrado com
muito carinho por nossa mãe Lucia Paulette Dell'Eva.]
Charles e Lucia Paulette haviam como seus pais, a força de vontade de vencer e não desistiriam. Alguns meses mais tarde, com a ajuda de seus fieis amigos maranhenses, nossos padrinhos, Pedro BRAGA FILHO e Francisco Paula GOMES, Charles e sua corajosa esposa Lucia Paulette, abriram um restaurante em São Luis chamado “A Brasileira”, de cozinha européia, situado no antigo “Beco do Teatro” nº (?), em frente ao Teatro Arthur Azevedo e ao lado da Academia Maranhense de Letras - Centro Antigo -, hoje Rua Godofredo Viana. O restaurante A Brasileira, conhecido como o restaurante dos frances, se tornou conhecido em pouco tempo até mesmo na cidade do Rio de Janeiro, frequentado pela alta sociedade de São Luis, ilustres acadêmicos e personalidades na época como por exemplo, os Senhores José Sarney, Procópio Ferreira, o poeta Lago Burnet...e entre outras o Presidente do Brasil em Exercício, Getúlio Vargas (fonte : Dedicatórias e assinaturas no Livro de Ouro de meus pais)
De
tudo que lá deixei
Eu sinto saudades
E eu que saí em busca
Da Felicidade
Percebo que lá deixei
Toda minha vida
Deixei o meu coração
Na minha terra querida
( Cláudio Fontana - Poeta Maranhense )
" Minha Terra tem Palmeiras onde Canta o Sabiá..."
Terra da Luz, do Sol, Terra de José de Alencar e de Iracema,
a Índia dos lábios de mel...
E foi assim que no início de 1952
o “segundo casal DELL’EVA”, segunda geração de Ângelo Tito DELL’EVA e Ester
Elvira PODETTI, de origens Franco-Trentina, fora convidado
pelos senhores Júlio Coelho, Diretor e Romeo Aldiguieri, Presidente do
Clube
Náutico Atlético Cearense para sua nova inauguração,
e o gerenciamento do restaurante em Fortaleza,
Capital do Estado do Ceará.(Ata de Reunião
nº 407 de 08-01-1953 do Náutico Atlético Cearense).
Era, naquela época, um dos maiores clubes do Brasil, inaugurado em 1952 (nova
sede), onde Charles teve um grande sucesso introduzindo no seu menu, e pela
primeira vez na história Cearense “a
lagosta”, até então desconhecida ou “recusada” pela sociedade. Ele herdara
sem dúvida de seus pais Ângelo e Ester o don da cozinha trentina, como
minha mãe Lúcia que herdara os dons da cozinha francesa de sua mãe Albertine
Jeanne Angeline LENAY LECOMTE, o que os tornou famosos durante mais de 20 anos
em Fortaleza.
(ver postagem no Blog Fortaleza Nobre : Charles e Lúcia Paulette Dell'Eva e O pioneiro da Lagosta no Ceará)
Em 1953, Charles receberá um novo convite do Senhor José Dummar, para gerenciar o novo restaurante do Ideal Clube, freqüentado pela alta sociedade de Fortaleza e o gerenciará até inicio de 1955, ano memorável para Charles e Lucia Paulette.
Nos primeiros meses de 1955, papai Charles e mamãe Lucia Paulette decidiram alugar a casa de praia construída em um grande terreno de propriedade da família Markan, situada na antiga Av. Getúlio Vargas nº 801, na Praia de Iracema, frente ao mar. E assim em maio de 1955, iniciam-se as obras do futuro Restaurante LIDO.
Finalmente em 27 de Novembro de 1955 é inaugurado o famoso e tão reputado Bar –Restaurante–Hotel “LIDO” situado na bela Praia de Iracema, face ao mar, de propriedade do casal, o qual será o “Marco” da família DELL’EVA no Brasil.
(ver postagem no Blog Fortaleza Nobre : Restaurante "Lido" - Fortaleza - Ceará)
Ao mesmo tempo são alugados dois sobrados jumelados e idênticos de esquina, de costas para o LIDO, que até hoje (2010) continuam em perfeito estado de conservação !
O primeiro sobrado, na esquina da Av. Getulio Vargas e de frente para Igreja São Pedro, fora transformada em um pequeno e charmoso hotel familiar, onde Charles e Lucia Dell’Eva hospedavam os tripulantes das companhias aéreas REAL e PANAIR DO BRASIL, como também forneciam as refeições e lanches de bordo nos aviões.
O segundo sobrado de esquina era nossa residência, bem ao lado dos negócios de meus pais, frente ao mar e ao estacionamento do LIDO.
Pouco tempo depois, Charles terá, entre outros, uma pequena frota de barcos de pesca e será o grande pioneiro da pesca e exportação de lagosta entre outros crustáceos, no litoral cearense. Seu grande amigo e aliado José Fernandez Andrade, era de origem espanhola mais conhecido como "Pepe", o qual o acompanhou neste segmento durante muito anos (1957-1965). Sou madrinha de seu filho, José Hélio Fernandez, "Pepinho", grande testemunha desta inesquecível época. Escreverei sua história em breve e fará parte de meu livro.
Charles fora também o inventor dos famosos masuãs em Fortaleza, (armadilhas para pesca de lagostas), o “savoir faire” trazido da França, mais tarde copiados por todos. Meu pai era um grande criador e colocava em prática suas idéias sempre com grande sucesso, mas era mamãe Lucia Paulette que os administrava. Eram os “anos dourados”, época de grandes realizações e prosperidade para meus pais, os quais são lembrados até hoje como “Charly” e “Lucia” Dell’Eva do “Lido”.
Após 11 anos e 6 meses no Brasil, meus pais decidem então solicitar em 25 de Julho de 1960 ao Governo Brasileiro, a nacionalidade Brasileira, em decorrência dos negócios e principalmente por terem 2 filhos nascidos no Brasil. A solicitação e o Processo de Naturalização sob o nº 1.109/60 encaminhado ao Exmo. Sr. Presidente da Republica do Brasil, foi assinado pelo Senhor José PARCIFAL BARROSO, Governador do Estado do Ceará em 17 de Agôsto de 1960.
E finalmente Charles e Lucia Dell’Eva serão declarados brasileiros, em 30 de Novembro de 1960, naturalização concedida por decreto conforme a lei 818 de 18.09.1949, alterada para 3.192 de 04 de Julho de 1957. (documentos oficiais de naturização brasileira recebidos do Arquivo Nacional - Coreg/DF em Brasília em 23 de Julho de 2004)
Ainda em meados dos anos 60 (1963-64), eles terão um dos primeiros super mercado, o “Lido Mar”, situado na época na Avenida Aquidabã, hoje Historiador Raimundo Girão, o qual teve grande sucesso. Logo na entrada havia um magnifíco viveiro em pedras com lagostas vivas, uma atração e uma grande novidade para os clientes cearenses, como era também no LIDO. Charles Dell’Eva será homenageado pelos cearenses como o industrial em destaque recebendo das mãos do Jornalista Jõao Ramos a famosa “jangada” de bronze no Programa “7 Dias em Destaque” na TV Ceará.
Não posso deixar de citar os shows de grande sucesso que aconteciam no LIDO com a presença marcante nos sábados à noite de Luiz Gonzaga, Luiz Vieira, Wanderléa, Rosemary, entre outros cantores e conjuntos da época. Entre 1964-1969 o Lido passou por grandes reformas, mudando totalmente seu aspecto, todo revestido em pedras aparentes e mais arejado; outros 2 salões foram construidos como também um grande espaço aberto com um palco, podendo receber inúmeros espetáculos.
Mas nem tudo é “eterno”...e com a chegada de novas concorrências e outras dificuldades, os anos de 1973 a 1976 serão marcados por tristes acontecimentos.
Em sua última viagem a França, nossa “Santa Mãe” Lucia Paulette LECOMTE-DELL’EVA, nos deixaria para sempre, falecendo em 06 de Outubro de 1973 aos 59 anos de um infarto inesperado na cidade de Cannes (Sul da França), ao lado de sua mãe Jeanne Lenay-Lecomte e da família Podetti-Dell’Eva onde estavam de férias por uns dias. Na ocasião eu morava também na França, em Thonon les Bains (fronteira com a Suiça), com meu marido e meus dois filhos, Marc e Fabienne Boulay. (retorno ao Brasil em dezembro de 1973)
Minha mãe descansa no cimitério de Chaumont sur Loire no jazido da família materna, LENAY, bem ao lado de um dos mais famosos castelos da França, o qual domina o Rio La Loire. Era um de sueus desejos...
Esta foi sem dúvida a maior de todas as tristezas vivida no seio de uma família, uma perda inestimável e com esta seguirão as falências sucessivas dos negócios em Fortaleza.
Após estes tristes anos, Charles decide tentar novas oportunidades em Brasília , a nova Capital do Brasil, onde abriria mais dois restaurantes, O Paisano e um outro no Ministério das Minas e Energias atravès de um Edital de Concorrência, como também um pequeno mercado de carne, frutas e verduras, batizado de Santa Lúcia (1974-84). Mas os tempos haviam mudado, as concorrências eram grandes e Charles já tinha 77 anos de idade. Era hora de se aposentar e de aproveitar do amor e do carinho de seus filhos e de seus netos, suas próximas gerações. Charles passou seus últimos anos em nossa companhia em São Paulo , onde moramos de 1980 a 1996.
Charles DELL’EVA faleceu em 22 de Junho de 1991 em São Paulo aos 83 anos, onde descansa no jazigo dos Antigos Combatentes Franceses, Cemitério da Consolação, pertencente ao Consulado Geral da França em São Paulo. Charles foi homenageado pelas autoridades francesas deste Consulado, onde eu trabalhava.
Meu irmão Bernardo Pedro Dell’Eva casou-se por duas vezes no Brasil e teve três filhos de sua segunda união, sendo uma menina Lucia e dois meninos Charles e Pedro os quais darão continuidade ao nome DELL’EVA e às origens Franco-Trentinas.
Eu, Joanna Alice Dell’Eva, também me casei por duas vezes. De minha primeira união na França em 1969 com um francês, Dominique J.M.A. BOULAY, tive dois filhos, Marc-Alexandre (1970) e Fabienne BOULAY (1972), que me dão até hoje muito orgulho e felicidade. Minha filha Fabienne nos ofertou o maior dos presentes neste sábado dia 11 de fevereiro de 2006 : um neto maravilhoso, Luckas Alexandre BOULAY que nos cobre de amor e felicidade.
...E é assim que ainda hoje, um pequeno raio de Sol Trentino, faz bater mais forte o coração de uma “ïtala-franco-brasileira” estabelecida em Fortaleza, no Brasil (Guy Frank)
« A coragem, é procurar a verdade e dizê-la”
«Il coraggio, é di cercare la verità e dirla»
«Le courage, c'est de chercher la vérité et de la dire»
(Jean JAURES)
Une vague recouvre l'autre vague
et les souvenirs s'effacent.
Certains sont notre secret, d'autres ne nous appartiennent pas,
il
faut les donner !
Ils sont devenus le bien de tous.
Ils sont l'Histoire!
(Madeleine
Riffaud)
Uma
onda encobre outra onda
e
as lembranças se apagam.
Algumas são nosso segredo, outras não nos pertencem,
temos que dá-las !
Elas se tornaram o bem de todos.
Elas são a História!
(Madeleine
Riffaud)
Joanna
Alice Dell’Eva
Filha
de Charles DELL’EVA e Lucia Paulette LECOMTE
Neta de Angelo Tito DELL’EVA e Ester Elvira PODETTI
e de Théodore Henri LECOMTE e A. Jeanne A. LENAY
Fortaleza, Brasil 28-02-2006
(Completado em 13-08-2010 e em 22-02-2012)